O alarme, os resmungos e eu

Era um carro com quatro portas e, provavelmente, ar-condicionado e direção hidráulica. Esse é o novo conceito de carro básico. E que fique claro que o meu conhecimento sobre carros básicos contemporâneos é proveniente das páginas inteiras de anúncios que as montadoras colocam no jornal que costumo ler aos finais de semana. E se tem outra coisa que entendo sobre veículos automotores abastecidos com combustíveis fósseis, é de que eles são caros — tanto quanto os combustíveis fósseis, proporcionalmente falando. Mas essa análise prosaica que mantenho é tão irrelevante quanto os detalhes do carro, pois não era meu. A única coisa que me dizia respeito era que o som emitido por ele me fazia emitir o pior dos sons: o resmungo incontrolável. O alarme, agora, exatamente agora, está tocando há duas horas e quarenta e três minutos e seis, sete, oito segundos.

Numa tentativa absurda de parar o fluxo de pensamentos que aquela sirene de semitons agudos levava até o segundo andar do meu prédio, levantei da cama e coloquei uma camiseta para acompanhar o calção que costumo dormir. Isso por volta de meia-noite e vinte: quando eu estava há apenas uma hora ouvindo aquele som distante que entrava por meus ouvidos e percorria um curto caminho até uma área esquisita do meu cérebro. Um neurocirurgião poderia abrir minha cabeça e vasculhar até descobrir a particularidade da adjacência cerebral da ira com a autocomiseração. E essa intersecção pode ser atingida por pequenos incômodos inesperados como o alarme de um carro estacionado em frente ao meu prédio. Sou sensato, sei como essa tangente sempre existiu. Já estava tudo ali. A única culpa do alarme foi despertar essa área que mantenho no subterrâneo neural.

Uma coisa que não andam dando ênfase nos comerciais é o quanto dura uma bateria, pensei ao me sentar na lataria do capô meio arredondado do veículo. Talvez assim de perto, ouvindo aquele maldito som estridente meu cérebro se esvaziasse de pensamentos autodestrutivos. A dor nos tímpanos não poderia curar meus maiores males psicológicos, mas a distração é a cura do século. O som daquele veículo desconhecido me atordoava e eu murmurava baixinho que Vou esquecer do empréstimo que fiz para comprar um carro para não me atrasar para o trabalho e mesmo assim continuar me atrasando até o dia que me demitiram e precisei vender o carro mas continuar pagando o empréstimo. Vou esquecer do empréstimo que fiz para comprar um carro…

Vou esquecer… Aí ela surgiu. E ela deve ter me visto com a face crispada e os punhos cerrados com força suficiente para deixar minhas articulações dos dedos meio saltadas demais. Ou pode apenas ter sentido o cheiro de raiva no ar. Imediatamente ela me fez esquecer do alarme e da raiva, e da dor nos tímpanos. até mesmo me esqueci imediatamente do mantra que murmurava. Ela veio do prédio com lajotas azuis, eu acho, não tenho certeza, pois só vi quando ela estava perto. Sabia que era residente de algum prédio pelas chaves que balançavam em sua mão e, durante o caminhar, batiam umas nas outras, e imagino que tilintavam, mas abafadas pelo alarme.

Sou um cara sensato, apesar dos problemas e dos resmungos incontroláveis. Portanto, adiantei meu pensamento e me afastei do carro ao mesmo tempo que ela se aproximava. Ergui as mãos com as palmas viradas na sua direção numa tentativa babaca de mostrar que eu não estava tentando roubar aquele carro. Que eu só estava sentado pensando sobre meus próprios problemas.

Identifiquei a inutilidade da minha reação assim que ela levantou a chave do carro em frente ao meu nariz e perguntou se eu estava tentando roubar o veículo.

O carro é teu?, perguntei e abaixei a palma da mão direita para apontar na direção do farol que jogava uma luz laranja na cara dela. Não sei por quê, mas a palma da minha mão esquerda continuava no ar apresentando uma semidefesa. Talvez por precaução, pois uma pessoa raivosa reconhece imediatamente uma semelhante. Poderia mentir que senti a raiva através da atmosfera pesada, ou pela postura corporal que ela adotava, mas preciso desabafar a estupidez de que apenas por ela ter um carro a julguei uma humana raivosa em potencial.

Eu poderia estar errado. E gostaria muito de estar, pois não estaria com os rasgões que ela me deixou nas bochechas e o estomago retorcido por três ou quatro socos. E cortes meio irregulares nos antebraços. Porque quando tentei reagir e levantar os braços, ela usou a chave do veículo como se fosse uma faca e desferiu inúmeros golpes. Foi lindo. Isso tudo ao som do alarme.

Depois que eu caí sentado no asfalto, ela se deu por satisfeita. Virou as costas e apontou um objeto retangular em direção ao veículo para, então, apertar o botão que cessou o som do alarme.

Máquinas de ar-condicionado presas embaixo das janelas dos apartamentos, buzinas distantes de uns poucos carros nas ruas paralelas e dois cachorros latindo desesperados assumiram a responsabilidade de fazer a segunda voz do silêncio aconchegante daquela madrugada de terça-feira.

De vez em quando o alarme do carro ainda toca só nos meus ouvidos. E os resmungos incontroláveis se tornaram recorrentes, mas depois de um tempo acabamos por nos acostumar uns com os outros; o alarme, os resmungos e eu.